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Tu vens, tu vens. Já escuto teus sinais

Não há vacinas. Não há exames para diagnóstico precoce. Não há tratamentos - somente administrar líquidos e tentar baixar a febre.

Publicada em: 14/12/2007



No começo tudo se assemelha a uma simples gripe. Mas em seguida a febre começa a aumentar, e surgem dores de cabeça, dores nas articulações e nos músculos, náuseas e minúsculas manchas avermelhadas na pele. Na forma mais severa, conhecida como Dengue Hemorrágica, ocorrem sangramentos internos e externos, podendo evoluir para a morte. Nestes casos há muito pouco a fazer - o médico é quase um espectador desesperado. Turbinada pelas alterações climáticas, pelas péssimas condições sanitárias e pelo baixo nível cultural da população, a Dengue é, cada vez mais, o maior flagelo da América Latina.

No México foram notificados 27.000 casos de dengue no ano passado, o que corresponde a um aumento de 400 % em relação ao número de casos relatados em 2003. Em El Salvador foram 22.000 casos - um número vinte vezes maior que o de 5 anos atrás!

Até mesmo o Uruguai, um país pequeno, sofisticado, que há 90 anos não relatava um só caso de dengue, já está sendo assolado pela tormenta.
 
No Brasil o número de notificações da dengue atingiu 135.000 casos nos primeiros 3 meses deste ano - um aumento de três vezes em relação ao ano anterior. E o último relatório do Ministério da Saúde (datado de ontem, 13.13.07) já informa a ocorrência de mais de 500.000 casos, até novembro último, sendo 1.275 do tipo hemorrágico - 136 pessoas morreram! Em relação ao ano passado, já houve um aumento de 200.000 casos. E o mais grave, o índice de letalidade (que mede a capacidade de matar) atingiu 10 % - o dobro dos anos anteriores.

Em 2007, 1 em cada 4 casos de Dengue ocorreu no Nordeste. Vale lembrar que o número de casos não notificados deve corresponder ao dobro das notificações.
No Paraguai o número de casos da dengue informados às organizações oficiais de saúde triplica a cada ano.
 
Segundo a Organização Mundial de Saúde a dengue já tornou-se endêmica em quase todos os países tropicais, afetando cerca de 50 milhões de pessoas por ano, sobretudo em áreas suburbanas. Afirma-se que 2,5 bilhões de pessoas, o que equivale a 2/3 da população do mundo, começam a ser considerada "sob risco". Todos os anos, cerca de 500 milhões de pessoas, a maioria delas constituídas por crianças, apresentam uma forma severa de Dengue Hemorrágica, a ponto de necessitarem de atendimento hospitalar. Em todo o mundo, cerca de 3 em cada 100 pessoas acometidas por Dengue Hemorrágica morre.

Mesmo já tendo sido acometido pela Dengue causada por um dos seus vírus, pode-se contraí-la por mais 3 vezes, pois existem 4 vírus conhecidos da doença. E a cada nova infecção o risco de desenvolver a forma hemorrágica, mais grave, se torna maior. Quando a enfermidade começou a surgir no Brasil, por volta de 2001, 1 em cada 50 casos apresentava-se na forma hemorrágica, agora tal proporção chega a 1 em cada 20 casos.

No ano passado algo em torno de 500.000 casos de dengue foram reportados na América Latina, incluindo mais de 15.000 casos de dengue hemorrágica, resultando em 190 mortes. Este ano, só o Brasil já atingiu, sozinho, o número de casos ocorridos em toda a América Latina durante todo o ano de 2006.
 
Os vírus da Dengue são transmitidos pelo mosquito fêmea Aedes, o qual adquire o vírus enquanto pica um pessoa infectada pela doença.

Não há tratamento preventivo conhecido, ou cura antiviral - a única maneira prática de combater o crescimento dos vírus é eliminar os mosquitos Aedes, impedindo-os de se reproduzirem. Infelizmente este trabalho é praticamente impossível de ser realizado em países tropicais e pobres, pois precisa ser feito casa-a-casa, durante o ano inteiro, removendo todos os objetos onde possam ocorrer acúmulos de água, local em que o mosquito se reproduz. Todavia, este procedimento, que dependeria de programas governamentais, mantidos durante o ano inteiro ( e não somente durante o período chuvoso) só seria realmente eficaz se contasse com a colaboração ativa de toda a população, e se as redes de escoamento de águas pluviais e de esgotos apresentassem a abrangência que está muito longe de ser atingida.

E segue um pequeno consolo, para reflexão: Santa Catarina é o único estado brasileiro que continua sem transmissão de Dengue. O mosquito não consegue fixar residência e se reproduzir por lá. Será por causa de sua posição geográfica e do clima? Não, pois Paraná e Rio Grande do Sul, seus dois vizinhos, já estão sendo consumidos pela doença!

O que será, que será, então, que faz as diferenças?

 
José Cerqueira Dantas, médico.
14.12.2007



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