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Moralização: senso universal?

Professor de Harvard investiga por que as reputações morais de personalidades como Madre Teresa de Calcutá e Bill Gates estão em desacordo com o bem que praticaram.

Publicada em: 11/02/2008



Qual das seguintes pessoas é a mais admirável? Madre Teresa, Bill Gates ou Norman Borlaug? E qual é a menos admirável? Para a maioria das pessoas é uma pergunta fácil. Madre Teresa, famosa por socorrer os pobres em Calcutá, foi beatificada pelo Vaticano, recebeu o Prêmio Nobel da Paz e se classificou em uma pesquisa americana como a pessoa mais admirada do século 20.

Bill Gates, infame por nos dar o clipe de papel dançante da Microsoft e a tela azul da morte, foi decapitado simbolicamente em websites "Eu Odeio Gates" e atingido com uma torta no rosto. Quanto a Norman Borlaug... quem é ele?

Mas um exame mais profundo poderá levá-lo a reavaliar suas respostas. Borlaug, pai da "Revolução Verde", que usou a ciência agrícola para reduzir a fome mundial, recebeu o crédito por salvar 1 bilhão de vidas, mais que qualquer outra pessoa na história.

Gates, ao decidir o que fazer com sua fortuna, calculou bem e decidiu que podia aliviar mais sofrimento combatendo pragas comuns no mundo em desenvolvimento, como malária, diarréia e parasitas.

Madre Teresa, por sua vez, enalteceu a virtude do sofrimento e dirigiu suas bem financiadas missões apropriadamente: seus doentes recebiam muitas orações, mas condições exíguas, poucos analgésicos e tratamentos médicos perigosamente primitivos.

Lei íntima

Não é difícil entender por que as reputações morais desses três estão tão em desacordo com o bem que praticaram.

Madre Teresa foi a própria personificação da santidade: vestida de branco, olhar triste, ascética e freqüentemente fotografada com os miseráveis da Terra. Gates é o mais nerd dos nerds e o homem mais rico do mundo, com a mesma probabilidade de entrar no paraíso quanto o proverbial camelo espremido no buraco da agulha.

E Borlaug, aos 93 anos, é um agrônomo que passou a vida em laboratórios e instituições sem fins lucrativos, raramente aparecendo no palco da mídia e, logo, em nossa consciência.

Duvido que esses exemplos convençam alguém a preferir Bill Gates a Madre Teresa para santificação.

Mas eles mostram que nossas cabeças podem ser atraídas por uma aura de santidade, distraindo-nos de uma identificação mais objetiva dos atos que fazem as pessoas sofrerem ou florescerem.

Parece que talvez sejamos todos vulneráveis a ilusões morais. Hoje, um novo campo está usando as ilusões para desmascarar um sexto sentido, o senso moral. As intuições morais estão sendo extraídas das pessoas em laboratórios, em websites e em escaneadores cerebrais e estão sendo explicadas com ferramentas da teoria dos jogos, da neurociência e da biologia evolucionária.

"Duas coisas enchem a mente de admiração e respeito sempre renovados e crescentes, quanto mais freqüente e constantemente refletimos sobre elas", escreveu o filósofo alemão Immanuel Kant. "Os céus estrelados no alto e a lei moral no íntimo." Hoje em dia, a lei moral íntima está sendo vista com crescente respeito, embora nem sempre com admiração.

Se a moral é um mero truque do cérebro, como temem alguns, nossas próprias bases para sermos morais poderiam ser erodidas. Mas, como veremos adiante, a ciência do senso moral pode ser vista como uma maneira de reforçar essas bases, esclarecendo o que é a moral e como ela deve conduzir nossas ações.

A tecla da moralização

É a atitude mental que nos faz considerar certos atos imorais, e não meramente desagradáveis, fora de moda ("calças boca-de-sino já eram") ou imprudentes ("não coce picadas de mosquito").

A primeira característica da moralização é que as regras que ela invoca são consideradas universais. As proibições ao estupro e ao assassinato, por exemplo, não são consideradas questões de costume local, mas algo universal e objetivamente sancionado.

A outra característica é que as pessoas sentem que quem comete atos imorais merece ser punido.

Todos sabemos como e quando o "botão" da moralização é acionado dentro de nós -o fulgor virtuoso, a ira flamejante, o ímpeto de recrutar outros para a causa. O psicólogo Paul Rozin estudou esse botão comparando dois tipos de pessoas que têm o mesmo comportamento, mas com regulagens diferentes do botão.

Certos vegetarianos evitam comer carne por razões práticas, como reduzir o colesterol e evitar toxinas. Os vegetarianos morais evitam a carne por razões éticas, para não serem cúmplices com o sofrimento dos animais.

Mesmo quando as pessoas concordam que um resultado é desejável, podem discordar sobre se ele deve ser tratado como uma questão de preferência e prudência ou como uma questão de pecado e virtude.

Rozin nota, por exemplo, que o hábito de fumar foi moralizado ultimamente. Até pouco tempo atrás, compreendia-se que algumas pessoas não gostavam de fumar ou o evitavam porque era prejudicial à saúde. Mas, com a descoberta dos efeitos nocivos do tabagismo passivo, hoje fumar é tratado como algo imoral.

Muitas dessas moralizações, como o ataque ao tabagismo, podem ser entendidas como táticas práticas para reduzir um mal recém-identificado. Mas, se uma atividade liga nossos botões mentais no modo "moral", não é só uma questão do mal que ela provoca. Comer um Big Mac é falta de escrúpulos, mas não queijo importado ou crème brûlée.

O motivo desses critérios duplos é óbvio: as pessoas tendem a alinhar sua moralização com seus próprios estilos de vida.

Senso universal

Quando antropólogos como Richard Shweder e Alan Fiske estudam preocupações morais ao redor do mundo, descobrem que alguns temas freqüentemente se destacam em meio à diversidade. Pessoas de todos os lugares, pelo menos em certas circunstâncias e tendo em mente certas pessoas, acham que é errado ferir os outros e certo ajudá-los.

Elas têm um senso de justiça; valorizam a lealdade a um grupo, o intercâmbio e a solidariedade entre seus membros e a conformidade a suas normas. Acreditam que é certo obedecer às autoridades legítimas e respeitar as pessoas em posição elevada. E exaltam a pureza, a limpeza e a santidade, enquanto desprezam a degradação, a contaminação e a carnalidade.

O número exato de temas depende de você ser um agregador ou um divisor, mas Haidt conta cinco -agressão, justiça, comunidade (ou lealdade ao grupo), autoridade e pureza- e sugere que essas são as cores primárias de nosso senso moral. Não apenas reaparecem em pesquisas entre diversas culturas, como cada uma se liga às intuições morais das pessoas de nossa própria cultura.


Fonte: Steven Pinker/Folha de S. Paulo
Edição: F.C.
11.02.2008



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