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Moda e Liberdade

Passaram-se os anos, e surgiram os "jeans", o rock, a pílula... e a "liberdade" feminina ! Com ela, o direito da mulher vestir-se como bem entendesse.

Publicada em: 03/01/2008



Há lembranças da infância que se eternizam, como que coladas na memória recente. Um filme nítido e vivaz. Uma destas recordações está ligada a um Natal da minha infância: íamos receber pessoas da família, e minha mãe, mulher bonita e vaidosa, arrumou-se toda, com seus longos cabelos petrificados pelo "laquet" e as maçãs do rosto cintilando o exuberante pigmento do "rouge". Estávamos à sala, esperando o primeiro convidado, quando entra dna. Mirtes, no vigor de seus 28-29 anos, emoldurada por um belo vestido vermelho, que mostrava-lhe as pernas (embora encobrindo os joelhos), delineando a cintura e os ombros. Era como se Ava Gardner tivesse saído das telas do Cine Rex, para cear conosco naquele Natal.

Pouco durou o espetáculo, pois meu pai, silencioso e rápido, surgiu com uma longa tesoura, e empunhando a bainha do vestido começou a cortá-lo, de baixo a cima. Minha mãe soluçava e dizia: "por favor, Dantas, não faça isso !", enquanto ele repetia: "falta de respeito, que falta de respeito !" Fui, assim, apresentado, ainda na infância a uma das manifestações mais eloquentes daquilo que muito depois veio a se chamar "ditadura da moda". No caso mais justo seria chamar "moda da ditadura”.
 
Passaram-se os anos, e surgiram os "jeans", o rock, a pílula... e a "liberdade" feminina ! Com ela, o direito da mulher vestir-se como bem entendesse. E nada permite acompanhar mais a evolução desta relação liberdade/mulher/moda, que os jeans: no início era uma vestimenta que se apertava na cintura, através de um cinto. Depois passou a se apoiar nos quadris, exercendo uma pressão circunferencial na região lombar, sustentando-se por um mecanismo de suspensão. Finalmente, foi atingido o estágio atual, no qual os jeans passaram a sustentar-se por aderência, num processo de colagem ao corpo: a mulher não vira, ou mexe o abdome dentro das calças, o máximo que pode fazer é mexê-lo junto com as calças. Depois que jeans e outros tecidos "elásticos" foram desenvolvidos pela indústria da moda atingiu-se a fase atual, da "vestimenta-tatuagem", na qual os relevos corporais que não estão à mostra aparecem mais exuberantes que no natural, sobretudo quando é feito uso de materiais de silicone que acentuam artificialmente curvas e volumes irrelevantes.

Com isso o novo vestir feminino passa a existir "em-si" e "para-si". A mulher passa a viver para seus jeans e acessórios, assumindo um comportamento totalmente voltado para atitudes de exterioridade. Um paradoxo: a vestimenta que surgiu sob o signo da informalidade, da liberdade, veio justamente impor uma nova "etiqueta", controlando e ditando gestos e movimentos.
 
Na história da humanidade a roupa influiu muito sobre o comportamento e a moralidade, e "evoluimos" para uma condição feminina que a obriga a viver para o exterior, reduzindo o exercício da interioridade. Para a mulher atual a vestimenta perdeu sua característica de proteção e intimidade corporal: agora o corpo tornou-se algo totalmente exteriorizado. "Eu sou o que e como eu visto", pensa a mulher, mergulhando num processo de "autoconsciência epidérmica", na expressão de Humberto Eco.

O sofrimento da contradição se instala quando as formas corporais começam, pelos efeitos da idade e dos hábitos, a não obedecer às fronteiras impostas pela armadura, e mesmo com a moça da loja dizendo "aperte, aperte, depois se ajustam", um espetáculo particularmente dramático de conflito conteúdo/continente começa a se delinear.
Isso sem contar que o pensamento tem horror dos tecidos colantes!
 
Triste condição feminina - sempre obrigada a viver para a exterioridade: no passado proibida de mostrar-se, no presente obrigada a fazê-lo, impelindo-a a descuidar do exercício do pensar! A mulher atual está, assim, mais escravizada pela moda do que o foi minha mãe pelo meu pai. A mulher foi escravizada pela moda não apenas porque lhe foi imposto ser atraente, desejável, excitante. Tornada assim objeto, ela foi escravizada, acima de tudo, porque a moda à qual se submete obriga-a a viver sempre para o exterior, para o olho do outro. Temos, assim, que pensar o quanto uma moça precisa hoje ser dotada e guerreira para conseguir, submetida à imposição de vestir as roupas de moda, ainda assim ler, pensar, refletir; alimentando sua interioridade.

Descobre-se então que, símbolo aparente de liberação e de igualdade com os homens, as roupas da moda hoje imposta à mulher são uma outra armadilha da dominação, fazendo-as tão escravas quanto o foi minha mãe. Será um dia possível, à mulher, vida fora da esfera do domínio?
 
 
José Cerqueira Dantas.
03.01.2008



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