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BEM-ESTAR


Pesquisas mostram que é possível aprender a ser otimista

Pequenos momentos repetidos de sentimentos positivos podem servir como um amortecedor contra o estresse e a depressão e promover a saúde física e mental, segundo estudos.

Publicada em: Segunda-feira, 17 de Abril de 2017



Na maioria das manhãs, quando saio do clube depois de nadar e tomar banho, cruzo com uma grande quantidade de crianças que vão ao encontro de seus cuidadores para uma atividade orientada. Não consigo resistir a dizer oi, pedir um high-five e desejar que se divirtam. Deixo o clube sorrindo de orelha a orelha, feliz não apenas por causa do meu exercício físico, mas ainda mais pela interação com esses queridos representantes da próxima geração.

Que ótima maneira de começar o dia!

Quando contei para uma amiga nadadora sobre essa experiência e mencionei que estava escrevendo uma coluna sobre os benefícios das emoções positivas para a saúde, ela perguntou: "O que você pensa sobre as pessoas que são sempre negativas?" Ela estava se referindo a seus pais, cujo pessimismo crônico parece deixar todo mundo triste e tornar as visitas familiares extremamente desagradáveis.

Eu vivi meio século com um homem que sofria de surtos periódicos de depressão, então entendo que o pessimismo pode ser um grande desafio. Gostaria de ter conhecido anos atrás o trabalho de Barbara Fredrickson, psicóloga da Universidade da Carolina do Norte, sobre a promoção de emoções positivas, principalmente sua teoria de que acumular "micromomentos de otimismo", como minha interação diária com as crianças, pode, ao longo do tempo, resultar em uma maior sensação de bem estar geral.

A pesquisa que Fredrickson e outros pesquisadores fizeram demonstra que a capacidade de criar emoções positivas a partir de atividades diárias pode determinar quem desabrocha e quem não. Mais do que um arroubo repentino de sorte, pequenos momentos repetidos de sentimentos positivos podem servir como um amortecedor contra o estresse e a depressão e promover a saúde física e mental, segundo esses estudos.

Isso não quer dizer que se deve estar sempre otimista para ser saudável e feliz. Claro, existem momentos e situações que naturalmente causam sentimentos negativos mesmo no indivíduo mais otimista. Preocupação, tristeza, raiva e outros sentimentos "para baixo" têm seu lugar em uma vida normal. Mas ver o copo meio vazio de modo crônico é prejudicial tanto mental quando fisicamente e inibe a capacidade da pessoa de se livrar dos inevitáveis estresses da vida.

Sentimentos negativos ativam uma região do cérebro chamada amígdala, envolvida no processamento do medo, da ansiedade e de outras emoções. O doutor Richard J. Davidson, neurocientista e fundador do Centro para Mentes Saudáveis da Universidade de Wisconsin, em Madison, mostrou que as pessoas em quem a amígdala se recupera mais lentamente de uma ameaça correm mais risco de ter uma série de problemas de saúde do que aqueles em quem ela se reestabelece rapidamente.

Tanto ele quando Fredrickson e seus colegas demonstraram que o cérebro é "plástico", capaz de gerar novas células e caminhos, e é possível treinar seus circuitos para que promovam respostas mais otimistas. Ou seja, uma pessoa pode aprender a ver as coisas de maneira mais positiva praticando certas habilidades que promovem o otimismo.

A equipe de Fredrickson descobriu, por exemplo, que seis semanas de treinamento de um tipo de meditação focada na compaixão e na bondade resultaram em um aumento de emoções positivas e de conexões sociais e melhoraram a função de um dos principais nervos que ajudam a controlar o ritmo do coração. O resultado foi uma frequência cardíaca mais variável que, segundo a pesquisadora, está associada a benefícios de saúde objetivos, como melhor controle da glicose no sangue, menos inflamações e recuperação mais rápida no caso de um ataque cardíaco.

A equipe de Davidson mostrou que até mesmo duas semanas de treinamento com meditação voltada à compaixão e à bondade gerou mudanças nos circuitos do cérebro ligados a um aumento nos comportamentos sociais positivos como a generosidade.

"Os resultados sugerem que gastar um tempo para aprender as habilidades que causam em nós emoções positivas pode nos ajudar a gerar versões mais saudáveis, sociáveis e resistentes de nós mesmos", relatou Fredrickson em um boletim mensal do National Institutes of Health em 2015.

Segundo Davidson, "o bem-estar pode ser considerado uma habilidade de vida. Se você pratica, realmente pode melhorar". Aprendendo e praticando regularmente habilidades que promovem emoções positivas, é possível se tornar uma pessoa mais feliz e saudável. Assim, existe esperança para aqueles como os pais da minha amiga, se eles optarem por tomar medidas para desenvolver e reforçar o otimismo.

Em seu mais novo livro, "Love 2.0" ("Amor 2.0", em tradução livre), Fredrickson relata que "o otimismo compartilhado – duas pessoas que dividem a mesma emoção – pode ter um impacto ainda maior na saúde do que algo positivo experimentado por uma só pessoa". Pense em assistir uma peça, um filme ou uma série engraçada com um amigo de gosto parecido com o seu ou compartilhar boas notícias, uma piada ou um incidente divertido com outras pessoas. Fredrickson também ensina "meditação de amor e bondade" focada em direcionar coisas boas para os outros. Isso pode fazer com que as pessoas "se sintam em maior sintonia com as outras", diz ela.

Entre as atividades que Fredrickson e outros pesquisadores apoiam como promotoras de emoções positivas estão:

Fazer coisas boas para outras pessoas. Além de tornar os outros felizes, isso aumenta os próprios sentimentos positivos. Pode ser algo simples como ajudar alguém a carregar um pacote pesado ou indicar o caminho para um desconhecido.

Admirar o mundo. Pode ser um pássaro, uma árvore, um lindo nascer ou por do sol ou mesmo uma peça de roupa que alguém está usando. Recentemente, conheci um homem que estava animado com os detalhes arquitetônicos de uma das casas do século XIX do meu bairro.

Desenvolver e reforçar os relacionamentos. Construir conexões sociais fortes com amigos e pessoas da família aumenta os sentimentos de autoestima e, segundo estudos de longo prazo, está associado a uma saúde melhor e a uma vida mais longa.

Estabelecer objetivos que podem ser alcançados. Talvez você queira melhorar no tênis ou ler mais livros. Mas seja realista; um objetivo que não é prático ou que é muito desafiador pode causar um estresse desnecessário.

Aprender algo novo. Pode ser um esporte, uma língua, um instrumento ou um jogo que traga um sentimento de realização, autoconfiança e resistência. Mas aqui também seja realista a respeito do prazo que a tarefa pode ter e esteja certo de que possui o tempo necessário.

Escolher se aceitar com todos os defeitos. Ao invés de imperfeições e falhas, foque nos atributos positivos e nas conquistas. As pessoas mais adoráveis que eu conheço não têm nenhuma das características externas de formosura, mas brilham com uma beleza interna de cuidado, compaixão e consideração pelos outros.

Praticar resistência. Ao invés de deixar as perdas, o estresse, o fracasso e o trauma dominarem você, use-os como experiências de aprendizado e degraus para um futuro melhor. Lembre-se da expressão: quando a vida lhe dá um limão, faça uma limonada.

Praticar a atenção plena. Ficar pensando sobre problemas do passado ou dificuldades futuras suga seus recursos mentais e rouba a atenção dos prazeres atuais. Deixe de lado as coisas que você não pode controlar e foque no aqui e no agora. Considere fazer um curso de meditação de instrospecção.

Fonte: The New York Times
Edição: F.C.