Nutrição

O imposto da longevidade

Tendo como base resultados de estudos científicos, pesquisadores britânicos defendem uma maior tributação sobre alimentos insalubres.

Segunda-feira, 21 de Maio de 2012

Governos de todo o mundo vêm travando uma luta contra uma série de inimigos bastante sedutores. Eles são deliciosos, quase irresistíveis, envoltos normalmente em embalagens coloridas e, muitas vezes, bem acessíveis economicamente. Esse grupo de vilões que se instala nas casas de famílias de todas as classes sociais são os alimentos ricos em gordura, açúcar e sódio, os principais causadores da obesidade, problema que já atinge 300 milhões de pessoas no planeta, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Pesquisadores da renomada Universidade de Oxford, no Reino Unido, defendem uma medida drástica para ajudar a controlar o consumo desses produtos: aplicar altas taxas de impostos sobre os alimentos que fazem mal à saúde.

Segundo o pesquisador britânico Oliver Mytton, um dos autores do artigo que será publicado na edição de hoje do periódico científico British Medical Journal (BMJ), os produtos que vão contra a saúde, como biscoitos, salgadinhos e refrigerantes, muitas vezes são mais baratos que os saudáveis, e essa distorção precisa ser corrigida.

"A evidência mostra cada vez mais impostos sobre alimentos insalubres. Quando são aplicados da maneira correta (os impostos), podem melhorar a dieta das pessoas", conta o pesquisador, que lembra que a Dinamarca está prestes a adotar uma ação do tipo. "Eu acho que o imposto dinamarquês sobre a gordura vai ter algum efeito na redução do consumo de alimentos ricos em gordura saturada — vamos esperar para ver o que acontecerá lá", afirma.

Apesar de a proposta defendida pelo grupo de qual faz parte ter sido apelidada de imposto da gordura, o pesquisador alerta que a medida, para ser eficaz, precisa abarcar mais produtos. "Muitas vezes, não é a gordura que deve ser tributada, mas um conjunto mais amplo de itens alimentares", conta Mytton, que incluiria também na lista alimentos ricos em sal e em açúcar.

"Não se trata apenas de combater a obesidade, mas uma série de outras doenças que também são causadas pela dieta desequilibrada, desde o câncer a doenças cardíacas", completa o britânico.

Queda nas vendas
Uma série de pesquisas ao redor do mundo vem mostrando que provocar um aumento nos preços de alimentos maléficos à saúde é uma forma eficaz de diminuir o consumo deles. Um estudo-piloto realizado em uma cantina escolar nos Estados Unidos apontou que, ao aplicar um imposto de 35% sobre bebidas ricas em açúcar, aumentando o valor em US$ 0,45, houve uma diminuição de 26% na venda.

Pesquisas de opinião feitas nos EUA afirmam que, entre 37% e 72% da população do país, recordista absoluto em casos de obesidade, apoia as sobretaxas como forma de promoção da saúde, além de incentivo ao consumo de alimentos benéficos ao organismo.

Estudos de projeção matemática também norte-americanos mostraram que o impacto na saúde pública do aumento forçado dos preços das bebidas pode ser ainda mais amplo. Pesquisadores estimam que pelo menos por lá 20% a mais nos impostos das bebidas açucaradas poderiam diminuir em 3,5% o número de casos de obesidade.

No Reino Unido, um estudo semelhante mostrou que 17,5% a mais no IVA — imposto aplicado às mercadorias comercializadas — de alimentos ricos em gordura, açúcar e sódio podem resultar em até 2,7 mil mortes cardíacas a menos por ano.

Apesar das aparentes vantagens, especialistas internacionais alertam que essa conta não é tão simples de fechar. "A ação poderia ter um efeito positivo, mas sabemos que as pessoas podem simplesmente mudar para gorduras mais baratas", opina a especialista internacional em políticas de alimentação e saúde pública Corinna Hawkes, da City University, em Londres, no Reino Unido. Ela acredita que a promoção da adoção de hábitos de alimentação saudáveis combinada à prática de exercícios pode ter resultados mais garantidos e duradouros.

Para ela, o grande problema ao serem adotadas tais políticas é a ainda ausente visão dos governos de que a obesidade é uma questão realmente séria, como a violência e a falta de acesso à educação. "O problema da obesidade não foi reconhecido pelo que realmente é: uma questão de má gestão econômica", afirma a especialista britânica. "Apenas quando for reconhecido como tal é que os governos estarão dispostos a agir", completa Hawkes.

Mudança de hábito
Uma ação inversa à taxação dos alimentos não saudáveis, ou seja, a promoção econômica daqueles que fazem bem para a saúde, também é apontada como uma possível peça no gigante quebra-cabeça da luta contra a epidemia mundial da obesidade, garante a especialista.

"Precisamos mudar o relacionamento das pessoas com as frutas e as verduras. Precisamos alterar de sobremaneira a disponibilidade, a qualidade, a acessibilidade financeira e a aceitabilidade — particularmente em relação ao gosto — desses alimentos", enumera Corinna Hawkes. "A melhor maneira de fazer isso seria mudar a forma como frutas e verduras são fornecidas — mais frescas, vindas diretamente dos agricultores e de maneira mais conveniente para as pessoas."

Segundo dados do IBGE, há cerca de 17 milhões de obesos no Brasil, o que representa 9,6% da população. A política brasileira para o controle do consumo desses alimentos é praticamente baseada na publicação de avisos sobre os efeitos de alguns tipos de alimentos e bebidas.

Em geral, os alertas são direcionados a crianças ou focados em produtos com teor alcoólico. Embora todos os alimentos devam trazer na embalagem tabela de informações nutricionais, não existem políticas que obriguem os fabricantes a limitar ou mesmo a alertar os consumidores dos males do consumo excessivo de gordura, açúcar e sódio.

 

Fonte: Correio Braziliense
Enviada por JC
Edição: F.C.
21.05.2012

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