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ÁLCOOL


Abuso do álcool aumenta o risco para o desenvolvimento da demência

Estudo indica que alcoólatras têm três vezes mais chances de sofrerem com a doença.

Publicada em: 22/02/2018



O consumo crônico e em excesso do álcool não faz mal apenas ao fígado, mas também ao cérebro, revela estudo publicado esta semana na revista “Lancet Public Health”. Os resultados indicam que o abuso de bebidas alcoólicas está associado com risco três vezes maior de demência, tornando o alcoolismo no principal fator para o declínio cognitivo que pode ser controlado pela alteração no estilo de vida. Por esse motivo, os pesquisadores sugerem a implementação de políticas para o diagnóstico e o tratamento precoce dessa parcela da população para reduzir casos futuros da doença.

— O vínculo entre a demência e desordens no uso do álcool precisa de mais estudos, mas provavelmente é resultado de danos estruturais e funcionais permanentes no cérebro decorrentes da bebida — apontou Michaël Schwarzinger, pesquisador da Rede Interdisciplinar de Economia da Saúde da França e autor principal do estudo. — As desordens do uso do álcool também aumentam os riscos de pressão alta, diabetes, derrame, fibrilação atrial e insuficiência cardíaca, que podem, por sua vez, aumentar o risco de demência vascular. Por fim, a bebida em excesso está associada com o tabaco, a depressão e a baixa escolaridade, que também são fatores de risco para a demência.

Na pesquisa, os cientistas consideraram os 57.353 casos de demência precoce — em indivíduos com menos de 65 anos — diagnosticados pelo sistema de saúde público francês entre 2008 e 2013. Deles, 39% foram atribuídos a danos cerebrais relacionados com o consumo do álcool. Além disso, 18% dos pacientes sofriam de alcoolismo. No total, as desordens relacionadas ao uso do álcool estão associadas a um risco três vezes maior de desenvolvimento da demência.

Os pesquisadores ressaltam ainda que o alcoolismo está associado com todos os outros fatores de risco independentes para o desenvolvimento da demência, como fumo, pressão alta, diabetes, baixos níveis de escolaridade, depressão e perda de audição. A definição de consumo crônico e em excesso do álcool seguiu recomendações da Organização Mundial da Saúde, que classifica a desordem com o consumo diário de mais de 60 gramas de álcool para homens — cerca de seis drinques — e de mais de 40 gramas para mulheres — cerca de quatro drinques.

— Nossas descobertas sugerem que o peso da demência atribuída a desordens no uso do álcool é muito maior do que se pensava, apontando que o abuso da bebida deve ser considerado como um grande fator de risco para todos os tipos de demência — comentou Schwarzinger. — Várias medidas são necessárias, como a redução da disponibilidade das bebidas, o aumento dos impostos e a proibição da publicidade do álcool, junto com o diagnóstico e o tratamento precoce do alcoolismo.

CONTROVÉRSIA SOBRE CONSUMO MODERADO

A relação entre o consumo de álcool e o declínio cognitivo é tema controverso entre os cientistas. Estudos anteriores já haviam indicado que o abuso da bebida aumentava o risco de demência, mas não tanto quanto o apontado pela pesquisa francesa. Por outro lado, outros estudos indicam que o consumo moderado de vinho tinto pode prevenir a demência.

— À primeira vista, os resultados podem parecer inconsistentes com outros estudos, incluindo alguns que se tornara, notícia recentemente, de que o consumo moderado do álcool está associado com uma melhor “saúde cognitiva” — analisou Matt Field, professor da Universidade de Liverpool não envolvido na pesquisa. — Mas esses resultados podem ser conciliados porque existe uma grande diferença entre consumo leve e moderado e o alcoolismo.

Contudo, Sara Imarisio, diretora de pesquisas no instituto Alzheimer’s Research, no Reino Unido, alerta que existem estudos apontando que até mesmo o consumo moderado pode ter um impacto negativo na saúde do cérebro.— As pessoas não devem ficar com a impressão que apenas beber até ser hospitalizado carrega o risco — destacou Sara. — Apesar de não existir uma forma de prevenir completamente a demência, as melhores evidências atuais indicam que assim como cortar a bebida, estar fisicamente e mentalmente ativo, comer uma dieta saudável e balanceada, não fumar e manter o peso, o colesterol e a pressão em dia são bons caminhos para garantir a saúde do cérebro com a idade.

Para Robert Howard, pesquisador da Universidade College London, o mais surpreendente do estudo “foi o longo tempo que levamos para reconhecer que o abuso e a dependência do álcool são fatores de risco potentes para o desenvolvimento da demência”.

— Nós sabemos há tempos que o álcool é neurotóxico, que a deficiência de tiamina nos alcoólatras prejudica a memória, que condições relacionadas ao álcool, como cirrose e epilepsia, podem danificar o cérebro e que o dano vascular cerebral é acelerado pelo álcool — comentou Howard. — Surpreendentemente, tradicionalmente nós não consideramos o álcool e seu abuso como um fator de risco importante para a demência e estávamos claramente errados nisso.


Fonte: O Globo
Edição: F.C.



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