Pe.Darly: essencialmente educador
Darly Luiz de Almeida, 63 anos, ou simplesmente padre Darly, é um religioso e educador comprometido com os ideais de educação da Companhia de Jesus. Os jesuítas, como são mais conhecidos, fazem parte de uma Ordem Religiosa fundada por Inácio de Loyola no século XVI, que além da missão evangelizadora, deixaram como legado uma linha particular de educar. Tanto é que a história da educação no Brasil é indissociável da Companhia de Jesus.
Padre Darly é o nosso personagem da vez no Retrato 3x4 de uma pessoa 100% do Portal Medplan. Ele tem uma profunda identificação com a ordem Jesuíta, não só por pertencer a ela, mas por ter sua formação quase que exclusivamente em escolas da Companhia de Jesus.
O padre está pela segunda vez em Teresina dirigindo o centenário e tradicional colégio Diocesano. Ele conta que a primeira vez em que morou na capital piauiense foi de 1986 a 1993 e este ano retornou para, mais uma vez, imprimir sua personalidade nos rumos do colégio.
Além de Teresina, o padre já desenvolveu sua missão em Cachoeiro do Itapemerim (ES), Salvador (BA) e Recife (PE). De uma família de sete irmãos, dentre os quais apenas uma mulher, Darly estudou com sua mãe professora até a 4ª série do ensino fundamental. Aos 12 anos saiu da pequena Iconha, sua cidade natal no interior do Espírito Santo, para estudar no colégio Anchieta (MG) e de lá trilhou sua formação jesuíta até se ordenar padre e desenvolver o trabalho que realiza até hoje.
“Fiz a 5ª e a 6ª séries nesse colégio, mas os jesuítas fecharam o educandário. Então fizemos um grupo e fomos estudar em Belo Horizonte (MG) no colégio Loyola, dos Jesuítas também, onde fiz a 7ª e 8ª séries. O Padre que era diretor conseguiu que eu estudasse em Nova Friburgo (RJ). No Final do ensino médio, os padres faziam as jornadas vocacionais e foi aí que fui convidado para entrar para a Companhia de Jesus e fiz o noviciado em Itaici (SP). Foi nas faculdades Jesuítas que cursei meu ensino superior em Teologia e Filosofia, em São Paulo e também no Rio Grande do Sul”.
Para falar um pouco de sua história e de sua missão como educador, Padre Darly recebeu gentilmente a reportagem do Portal Medplan.
Portal Medplan – Como foi a descoberta pela vida religiosa?
Pe.Darly – Desde a 8ª série fiz trabalhos sociais em favelas de Belo Horizonte e Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. Também fiz trabalho no presídio do Carandiru (em São Paulo) – na época da ditadura militar - dando aulas de catequese. Então a vocação surgiu naturalmente desse trabalho.
Portal Medplan – Fale mais dessa sua experiência dentro do presídio do Carandiru?
Pe.Darly – Íamos todo Domingo visitar os presos, que naquela época tinham um perfil diferente dos internos dos presídios hoje. Eles eram mais presos políticos. Enquanto uns padres celebravam missa outros davam assistência espiritual aos que desejavam. Conversávamos com eles, dávamos palestras sobre os mais diversos assuntos, como por exemplo, formação profissional. Procurávamos auxiliar intermediando ajuda judicial, ajudávamos com remédios e fazendo contato com a família deles.
Portal Medplan – Para o senhor, qual o maior retorno desse trabalho com os presos?
Pe. Darly – Foi o de desenvolver a dimensão da compaixão. Ainda hoje fazemos esse trabalho de visitar os presídios. Aqui em Teresina fazemos trabalhos na penitenciária Irmão Guido e no Presídio Feminino.
Portal Medplan- O senhor já falou da sua vocação religiosa. E a dimensão da Educação?

Pe.Darly está no comando do centenário Diocesano pela segunda vez
Pe. Darly – A educação faz parte da missão Jesuíta. E como os dois lados se complementam e nos damos bem nos dois, continuamos no setor educacional. Estamos dirigindo pela segunda vez o Diocesano. Morei aqui de 1986 a 1993 e voltei agora em 2007.
Portal Medplan – E qual é a diferença de dirigir o Diocesano naquela época e agora?
Pe.Darly – Agora está mais complexo no sentido de que antes havia mais comunicação entre as escolas, através do sindicado (Sintepi). Existiam ações conjuntas, mas hoje a impressão que temos é a de que há muito individualismo. Outra coisa complicada é o esquema que colocaram para o PSIU (Programa Seriado de Ingresso à Universidade), pois atrapalha a formação do aluno. A educação fica bitolada a isto. Desde o 1º ano do ensino médio os alunos ficam voltados para o PSIU. Não acho válido, pois para dar conta do conteúdo algumas escolas aumentam a carga carga horária, o que me parece desumano.
Nosso objetivo, enquanto educador, é formar gente competente e solidária. Não é só o intelectual, mas também outras capacidades como a de liderança e que eles saibam conviver com o diferente. Procuramos formar homens e mulheres que venham a atuar na sociedade mudando o que tem de ser mudado.
Portal Medplan – O senhor falou da dimensão maior da educação dentro do colégio que dirige, que vai além da questão de preparar para o vestibular. Então, como o PSIU é encarado na educação oferecida pelo Diocesano?
Pe.Darly – Estamos enquadrados para o PSIU. O colégio prepara os alunos para o ingresso na universidade e tenta driblar a situação e oferecer também esta outra formação moral, acerca da qual já nos referimos.
Portal Medplan – E como acontece na prática essa formação?
Pe.Darly – Temos dias de formação em campo com nossos alunos, quando eles visitam creches, orfanatos, favelas. Os alunos têm o que chamamos de experiências fraternas. Depois da visita a esses locais, vão para o sítio do colégio para refletir e há também momentos de lazer. Em nossa grade de ensino eles têm aula de sociologia, filosofia e religião. Essas disciplinas não contam para a admissão na universidade, mas os alunos têm essa formação. Outras atividades se somam à educação dita formal, como eventos culturais, gincanas, feira de conhecimento, feira das profissões, aulas passeio, seminários, debates. Diariamente, durante cinco minutos, antes das aulas eles têm também a leitura de um trecho da bíblia pelo serviço de som e refletem sobre isso. Essa ação não fui eu quem instituiu, quando cheguei já existia e é algo positivo.
Portal Medplan – Mediante a conformação da educação atual, como fica a educação jesuíta?
Pe.Darly – Para darmos conta da formação intelectual mais a humana incentivamos as excelências humana e acadêmica. A nossa intenção é formar pessoas que liderem para que haja paz.
Portal Medplan – Qual sua opinião sobre o papa Bento XVI?
Pe.Darly – Sei que ele é um teólogo muito culto. Não o conheço pessoalmente. Não tenho uma opinião formada, não sei dizer se ele é aberto às outras religiões ou mesmo compará-lo com o papa João Paulo II. É muita coisa para termos opinião (risos).

Pe.Darly arruma seus livros, melhor e maior passatempo
Portal Medplan – Quando o senhor não está nos seus afazeres de padre e diretor escolar, o que gosta de fazer?
Pe.Darly – Venho para o trabalho por volta das 7h da manhã e fico até 12h30, quando almoço e descanso um pouco. Depois retorno para o colégio e continuo minhas atividades até o final da tarde. Essa é minha rotina, mas quando estou fora dela gosto de caminhar e ler (sobre educação e leituras bíblicas). Atualmente também estou indo à academia para fortalecer a musculatura das costas, pois tenho problema na coluna e os exercícios ajudam a evitar a dor na região, além disso, faço fisioterapia.
Curtas...
Nome: Darly Luiz de Almeida
Idade: 63 anos
Naturalidade: Iconha (Espírito Santo)
As religiões: Elas caminham para um diálogo
Livro: Os Evangelhos, da Bíblia
Um Lugar no Mundo: Salvador
Hobby: Plantar Árvores
Comida preferida: Feijão com Arroz
Palavra que resume Pe.Darly: Educação
Uma Mensagem: Os que trabalham com educação precisam ser coerentes com aquilo que ensinam.
Por Adriana Cláutenes Lemos
20.09.2007



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