Decifra-me, ou te devoro
A humanidade e as epidemias sempre andaram juntas: o historiador grego Tucídides descreveu a peste ateniense de 430 A. C., tendo sido esta a mais famosa epidemia da história antiga, causando a morte de um quarto das tropas do exército imperial.
Roma sofreu muito com surtos de doenças infecciosas, a mais conhecida delas tendo ocorrido em 165 DC , causada por um agente patógeno trazido pelas legiões de Marco Aurélio ao retornarem da Mesopotâmia. Quase um terço da população de Roma foi fulminada por essa epidemia, que destruiu exércitos inteiros. Um outro surto epidêmico, ocorrido no início do século III, matou, em Roma, cerca de cinco mil pessoas por dia.
No século VI ocorreu, na descrição do historiador Procópio, "... aquela que praticamente acabou com a humanidade": a Peste Negra (assim chamada por causa de extensa hemorragia cutânea que conferia uma cor escura à pele das vítimas). Essa epidemia mergulhou a Itália na Idade das Trevas !
Mas foi somente com a expansão das trocas comerciais, resultante da abertura do tráfego marítimo nas rotas do Mediterrâneo, que os "navios da peste" puderam conduzir ratos pretos infestados pela Yersinia pestis até os portos da Europa banhada pelo Atlântico. Partindo daí as rotas com animais de carga serviriam para disseminar a doença por terra, ocupando as cidades e campos do continente numa velocidade de 2 quilômetros por dia.
Entre os anos de 1350 e 1360, um em cada quatro europeus havia falecido. E as ondas da doença não pararam: no surto de 1575-1577 Veneza perdeu um terço de seus habitantes.
As teorias para explicar a tragédia se multiplicavam, variando de explicações teológicas (castigos divinos por pecados cometidos) e raciais (contaminação de poços por judeus, justificando torturas e perseguições tenebrosas) a razões menos histéricas (de mau olhados e golpes de vento, à ingestão de cogumelos venenosos). E ninguém suspeitava das disputadas e caras roupas de pele, morada e transporte ideal para pulgas, irrequietos vetores da doença.
Em meados do século 18 um grande surto da Peste Negra varreu as populações do sul da França, o mesmo ocorrendo com a Rússia no século 19 e a China no início do século 20.
Com a melhoria das condições das habitações européias ( tendo os tijolos e as telhas substituído a madeira e as palhas ) e a adoção de hábitos de higiene, os ratos e as pulgas tiveram mais dificuldade em se aproximar dos humanos, interrompendo o ciclo de transmissão da doença.
Porém, atualmente a ameaça das epidemias continua muito grave, pois a expansão global do comércio, das viagens e das populações pode tornar explosivas as consequências do aparecimento de virus mutantes, ou de bactérias multirresistentes.
As epidemias gripais, por exemplo, são companheiras inseparáveis da humanidade, e quando surgem sob a forma de mutações podem dizimar milhões de pessoas, fazendo mais mortes e em maior velocidade que qualquer outra doença.
A grande tragédia se instala quando somos expostos a uma infecção desconhecida, tal como aconteceu às populações astecas e incas ao serem dizimadas pela varíola trazida pelos invasores espanhóis. No início estas doenças determinam altos índices de mortalidade, e em seguida, lentamente, num período que pode chegar a cem anos, por um processo de seleção natural, agente e hospedeiro se equilibram.
Muitas das epidemias surgem a partir de animais vivendo intimamente com os homens. A AIDS originou-se na África a partir da ingestão da carne de chimpanzés, o sarampo veio da sarna, a varíola dos bovinos, a dengue circulava inicialmente em macacos e a atual gripe A (H1N1), mutante norte-americana que se espalhou pelo mundo, teve origem no porco de engorda.
Tem sido impossível a qualquer país preparar-se para uma pandemia gripal, pois a cada ocorrência observa-se um perfil epidemiológico diferente: em 1889 ela matou mais os adultos jovens; em 1918 os menores de 5 anos e as pessoas saudáveis entre 15 e 45 anos foram as maiores vítimas; em 1957 foram as crianças e os idosos; e somente os idosos em 1968.
A atual gripe A traz outro complicador: seus sintomas são idênticos aos da gripe comum, sazonal, e por enquanto possui um comportamento benigno; embora pareça ser mais grave entre as grávidas, os asmáticos e os obesos.
O maior problema é: como saber se um paciente admitido em pronto socorro com quadro gripal é portador da nova doença ? Não existem exames que permitam fazer esse diagnóstico de urgência. Internar a todos é impossível, pois não existem leitos disponíveis. Estudos têm mostrado que dentre as pessoas com quadro gripal, menos de vinte por cento são portadoras do vírus mutante A (H1N1). Donde se conclui que se todos forem tratados com Tamiflu, este medicamento terá sido desnecessário em 4 de cada 5 casos, e essa administração pode favorecer o surgimento de espécies mutantes resistentes.
No momento atual ninguém sabe o que fazer, e tudo é simulação de conhecimento e controle. Os médicos não sabem o que dizer aos seus clientes e familiares: internar ou não ? Quando usar Tamiflu ? Deve-se vacinar a todos ? Aliás, é bom lembrar, não há vacina específica para a gripe A (gripe suína).
Enquanto as autoridades governamentais multiplicam portarias, os comerciantes de remédios agitam seus "lobbies" e as TVs. entrevistam vaidosas figuras médicas em busca de celebridade, mães ansiosas inundam os pronto-socorros e consultórios médicos apresentando aos médicos perguntas para as quais ninguém tem respostas confiáveis.
Um dos comportamentos clássicos da humanidade é o de procurar bodes expiatórios que aliviem a angústia da impotência coletiva ante as grandes ameaças. Que os deuses nos poupem, os médicos, de desempenhar esse papel. Para isso, é necessário que os conselhos, sindicatos e associações médicas mostrem à população e ao governo que distribuir vacinas e Tamiflu não é a solução do desafio que essa epidemia anuncia. E que medicina não é magia.
José Cerqueira Dantas
médico
Edição: F.C.
14.09.2009



Confira alguns trabalhos de Maria Cláudia Pinho, d...