Tendências Mundiais
Bandeira do Iraque
A vida desde a invasão americana, em 2003, tem sido, para a maioria dos iraquianos, uma história de perdas. Mas não para Araz Mohsin, que, antes do início da guerra, mal conseguia sobreviver trabalhando como padeiro. "Hoje tenho quatro carros", ele anunciou com orgulho. "O Land Cruiser custou US$ 80 mil."
O carro está estacionado numa rua ainda cheia de destroços da guerra sectária travada em seu bairro, Mansour, em Bagdá. Mohsin disse que sua história só teria sido possível nos Estados Unidos ou sob ocupação americana.
Não há nenhuma sugestão de que ele tenha feito algo ilegal, mas, na descrição que ele faz da ascensão de sua empresa, a Future Company, percebe-se como foi possível que quantias tão enormes de dinheiro tenham sido despejadas no Iraque com tão parcos resultados.
Em 2006, Mohsin decidiu trabalhar para o Exército dos EUA, como intérprete. Depois de quase dois anos, ele enxergou sua chance de capitalizar em cima dos contatos que fizera. Mohsin conhecia alguns homens de Ramadi (cidade no centro do Iraque) que sabiam como movimentar-se entre os extremistas.
Esses homens, capazes de operar em uma área na qual nenhum empresário ocidental poderia pôr os pés, se tornariam seus parceiros de negócios.
Depois de encerrar seu trabalho como intérprete, Mohsin voltou a procurar os americanos, ciente de que estavam oferecendo trabalho, e conseguiu um contrato de US$ 80 mil para fornecer cascalho para a base americana de Al Asad.
"Tivemos um lucro de US$ 40 mil", contou. "Minha parte foi de US$ 15 mil." Notando quão lucrativos poderiam ser os contratos com os americanos, ele fundou sua própria empresa, chamando seus amigos de Ramadi para ajudá-lo.
Os americanos queriam alguém para construir uma delegacia de polícia em Abu Ghraib, outra área de acesso interdito a empresas ocidentais. Estavam dispostos a pagar US$ 700 mil pela construção.
"Fechamos um acordo com o líder local da Al Qaeda no Iraque", contou Mohsin. "Eles prometeram não destruir a delegacia, e nós prometemos a eles uma parte dos lucros."
Mas, quando a obra ficou pronta, ele deu o nome do líder da Al Qaeda aos americanos, e o homem foi preso, contou Mohsin, acrescentou que ficou com todo o lucro da obra: US$ 350 mil.
E os valores não paravam de aumentar. Um contrato para recolher "lixo" de uma base nos arredores de Fallujah lhe rendeu US$ 1 milhão. Ele ainda descobriu que aquilo que os americanos consideravam ser lixo -geradores, cabos, aparelhos de ar condicionado, móveis- na realidade estava em estado utilizável e pôde ser revendido.
Agora, que os americanos já iniciaram sua retirada, Mohsin está incerto quanto a o que será da Future Company. Ele provavelmente deixará Bagdá e retornará a sua casa luxuosa no Curdistão.
Trabalhar com o governo iraquiano, disse Mohsin, se mostrou difícil. Ele fez um trabalho para o Estado e ainda não foi pago. "O governo é muito corrupto", explicou.
Fonte: The New York Times
Edição: F.C.
16.07.2009



Confira alguns trabalhos de Maria Cláudia Pinho, d...