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DOSES DE CULTURA


Nise – O coração da Loucura, dirigido por Roberto Berliner e estrelada pela atriz Glória Pires

A psiquiatra brasileira mudou de uma vez por todas a maneira como as doenças psiquiátricas eram encaradas.

Publicada em: Quarta-feira, 05 de Abril de 2017



A produção brasileira “Nise – O coração da Loucura”, dirigida por Roberto Berliner e estrelada pela atriz Glória Pires, foi recém-adicionada ao catálogo do serviço de streaming NETFLIX. A película conta um trecho da vida da psiquiatra alagoana Nise da Silveira (1905-1999). Ela se formou em 1931 na Faculdade de Medicina da Bahia — foi, aliás, a única mulher entre outros 157 homens da turma. Nos bancos escolares, ainda encontrou seu futuro marido, o sanitarista Mário Magalhães da Silveira. Após a morte de seus pais em Maceió, o casal resolveu mudar para o Rio de Janeiro, onde ela atuou em clínicas e hospitais psiquiátricos. Porém, sua longeva simpatia ao comunismo lhe custou caro: Nise acabou denunciada por uma enfermeira e foi presa pela polícia política do Estado Novo de Getúlio Vargas. Nos 18 meses de reclusão, dividiu a cela com a militante Olga Benário e manteve contato com o escritor Graciliano Ramos, que faria relatos sobre a médica em seu famoso livro Memórias do Cárcere:

Após passar um tempo na clandestinidade, Nise foi contratada em 1944 para o corpo clínico do Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, no Rio de Janeiro — e é aqui que o filme começa. Logo de cara, ela se opõe às novas técnicas para tratar os internos e se recusa a usar eletrochoques, camisas de força e isolamentos. Ao criar atritos com seus colegas de profissão, sofre uma transferência para a seção de Terapia Ocupacional, uma área completamente desprezada e sem os mínimos recursos.

É nesse momento que Nise revoluciona o tratamento das doenças mentais, junto com o médico Fábio Sodré. Em vez de permitir que seus pacientes fizessem serviços de limpeza ou levassem sovas, práticas bastante corriqueiras até então, oferece a eles pincéis, tintas e telas brancas. Esquizofrênicos ficavam livres para se expressar por meio da arte e frequentemente desenhavam mandalas. O resultado é inacreditável: além dos indivíduos melhorarem em seu comportamento, pintam verdadeiras obras de arte.

O trabalho foi reunido no Museu de Imagens do Inconsciente, que ganhou projeção internacional. Alguns dos quadros foram levados para o II Congresso Internacional de Psiquiatria em 1957, na cidade suíça de Zurique. A exposição foi inaugurada pelo próprio Carl Gustav Jung, um dos maiores nomes no estudo da psique humana. Nise trocava constantes cartas com Jung, que se interessou muito pelas iniciativas realizadas em terras brasileiras.

A médica também foi pioneira ao enxergar o valor terapêutico da interação dos internos com animais. Ela permitia que seus pacientes cuidassem de vira-latas que viviam nos pátios do hospital. Essa, aliás, é uma das cenas mais tristes do filme — não vou contar o que acontece pra não estragar. Calma que a mulher é incansável e ainda fundou a Casa das Palmeiras, em 1956, o primeiro centro a inaugurar uma atividade para reinserir na sociedade indivíduos que tiveram alta.

Hoje em dia, o acervo do Museu de Imagens do Inconsciente conta com mais de 360 mil obras e é reconhecido como “Memória do Mundo” pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, a Unesco. A médica faleceu em 1999, aos 94 anos, em decorrência de uma pneumonia.

Nise não foi apenas uma mulher à frente de seu tempo. Com sensibilidade ímpar, ela humanizou a forma como doentes mentais eram tratados. Com força e personalidade, enfrentou o preconceito, a resistência e o machismo. Com inteligência, ganhou notoriedade internacional e melhorou a vida de muita gente. Por essas e outras, sua história merece ser conhecida e homenageada.

Fonte: Saúde
Edição: F.C.