Comportamento

Como resgatar um cérebro sequestrado pelas redes sociais

O que precisamos são habilidades para gerenciar as redes sociais como uma parte de nossas vidas.

Terça-feira, 07 de Fevereiro de 2017

Passar horas da nossa vida checando o Facebook de forma automática nos converte em ratos de laboratório habitualmente pressionando uma alavanca na esperança de receber uma recompensa. Quando você verifica seu telefone, seu cérebro começa seu próprio ciclo de excitação: Alguém pode estar falando sobre você no Facebook! Não? Reabrir. Talvez Donald Trump tenha postado no Twitter novamente! Reabrir. Talvez seu Instagram tenha ganhado um coração! Reabrir. Reabrir. Mas não somos ratos. Os cérebros humanos podem resistir às fórmulas usadas pelos apps para sequestrar nossos cérebros, só precisamos aprender alguns truques para enfrentá-las.

Podemos considerar o Facebook e o Twitter como “vícios”? A emergente pesquisa científica sobre as redes sociais não concorda com esse conceito, mas evidências de que não estamos lidando bem com elas estão em exibição nas mesas de jantar onde todo mundo está olhando para uma telinha, assim como nas ruas, com os pedestres distraídos com seus celulares, sem prestar atenção no trânsito. E não culpe a geração do milênio. Um novo estudo da Nielsen detectou que os americanos entre 35 e 49 anos passam quase sete horas por semana nas redes sociais, mais que as gerações mais jovens.

Eu me conscientizei dos meus próprios maus hábitos. Logo de manhã, antes do café, ainda meio sonolento, eu passava uma hora na cama com o meu telefone, tragado pelo vórtice do presidente Trump no Facebook. Então, procurei psicólogos, cientistas que estudam o cérebro e designers de aplicativos que estudam nosso comportamento em busca de conselhos sobre o que realmente iria me ajudar a sair desse precipício. Surpreendentemente, eles não recomendaram uma desintoxicação digital radical. O que precisamos são habilidades para gerenciar as redes sociais como uma parte de nossas vidas.

Limite os gatilhos

Nossos cérebros estão programados para “se alimentar vorazmente com informações”, diz o neurocientista da Universidade da Califórnia, em San Francisco, Adam Gazzaley, um dos autores do livro “The Distracted Mind” (A mente distraída, em tradução livre, sem edição no Brasil), de 2016.

Então, por que deixar as empresas de rede social decidir quando tentá-lo? Desative as notificações do aplicativo em seu telefone e computador, especialmente para transmissões de vídeo ao vivo, cujos alertas são projetados de forma a gerar o medo de estar ficando de fora de algo importante.

Torne os principais dispositivos que você usa para trabalhar completamente inacessíveis às redes sociais. Não faça login no Facebook nem instale o aplicativo neles. Para obter ajuda extra, experimente a extensão do Facebook News Feed Eradicator, que substitui seu feed de notícias por frases de pensadores (em inglês).

Evite a areia movediça

Quando você está no Twitter ou no Facebook, é fácil ler um artigo, depois outro e depois outro. Nir Eyal, autor do livro “Hooked: How to Build Habit-Forming Products” (Fisgado: Como construir produtos formadores de hábitos, em tradução livre), de 2014, e consultor para desenvolvedores de aplicativos, diz que ele se proíbe de ler qualquer coisa imediatamente. Em vez disso, ele salva artigos em um serviço chamado Pocket, que os lê em voz alta enquanto ele está na academia.

Nós fazemos a nós mesmos um desserviço quando usamos as redes sociais como uma ruptura com o trabalho sério, diz Gazzaley. Nosso cérebro precisa de uma chance para simplesmente ficar vazio. Pesquisas sugerem que a melhor maneira de ajudar o foco cerebral é o exercício, mesmo por um curto período. Simplesmente olhar para o espaço seria melhor do que atualizar o Facebook.

Definir fronteiras

Se as redes sociais o levam a ignorar entes queridos na mesa de jantar ou no quarto, estabeleça períodos de tempo em que o uso das redes sociais está proibido. Definir regras também é importante para os pais, diz Wendy Wood, professora de psicologia e de negócios da Universidade do Sul da Califórnia. “Você quer que seus filhos aprendam a mesma habilidade que você gostaria de aprender, que é usar [as redes sociais] de uma maneira saudável e benéfica”, diz ela.

Alguns dos roteadores de Wi-Fi mais modernos têm controles parentais para ajudá-lo a limitar o acesso à internet em determinados dispositivos. Os bloqueadores de sites e de aplicativos para telefones, como Freedom, SelfControl ou Unplugged, também podem ajudar.

Crie novas regras

Até bem pouco tempo, seria uma ofensa inadmissível ignorar claramente uma reunião ou uma aula; Agora, muitos passeiam pela web abertamente em seus telefones ou laptops. Chefes poderiam definir uma cultura de trabalho melhor, fornecendo estações para recarga de bateria em reuniões onde todos pudessem deixar seus telefones e, então, concentrar-se no tema em debate.

Alguns teatros especializados em shows de comediantes e outros locais públicos têm estações assim ou bolsas seladas para os telefones. Eyal sugere que você tente envergonhar os amigos que demonstram maus hábitos — mas faça isso educadamente. Se alguém está te ignorando durante o jantar, pergunte, “Está tudo OK?” A resposta pode dar início a uma conversa importante.

A tecnologia deveria ajudar

A indústria das redes sociais também tem uma responsabilidade sobre isso. Como as empresas geralmente sabem exatamente quanto tempo os usuários gastam em seus aplicativos, Eyal sugere modestamente que elas ofereçam ajuda para as pessoas que demonstrem comportamento problemático.

E para o resto de nós, vamos incentivar os desenvolvedores de aplicativos que apoiam uma filosofia chamada Tempo Bem Gasto (do original, em inglês, Time Well Spent), criada em parte por Tristan Harris, um ex-designer do Google. Ele diz que os desenvolvedores de aplicativos devem tornar as interfaces mais úteis, não mais consumidoras do nosso tempo.

* Geoffrey A. Fowler
Fonte: WSJ

Edição: F.C.

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