André Gonçalves

Coisas de amor largadas na noite

De quando o amor me encontrou.

Terça-feira, 19 de Julho de 2011
















De quando o amor me encontrou
Outro dia eu tive um sonho em que você estava. Outro dia sonhei com Paris,
e que você estava em Paris, e que eu estava em Paris e que tudo que a gente
gostava e todos de quem gostava estavam em Paris. Nunca fui a
Paris, mas sei que o primeiro sinal de felicidade é sonhar com Paris, e o
sinal de que se está um estágio acima de felicidade é sonhar com Paris e
que se está em Paris, e o sinal de que se está dois estágios acima da
felicidade é sonhar com Paris e que se está em Paris e
tendo o amor também em Paris.
Je suis joyeux aqui, je suis joyeux em Paris e je suis joyeux onde quer que eu
esteja porque descobri você. Descobri você ao meu lado, descobri você ao
meu dentro, descobri você no meu mundo, descobri você e descobrindo você
estou descobrindo a mim, porque estou descobrindo que sou igualzinho a
você apesar de nossas óbvias e necessárias diferenças e de nossas parcas e
necessárias dessemelhanças. E vejo que o relógio correu a nosso favor nos
distantes anos 90, e que o relógio corre a nosso favor no novo milênio, e que
os nossos relógios, que fazem "tic-tac-tum-tum, tic-tac-tum-tum", além de
não precisarem de corda, batem no mesmo segundo, como numa sinfonia
de Hadyn. Desconsideremos os momentos em que os ponteiros decidem
cobrir o rosto e nos deixar a sós. Desconsideremos os momentos em que "a
santa" vela por nós. Desconsideremos os momentos em que a lua mergulha
no caldeirão e derrama leite pela noite. Desconsideremos os momentos em
que uma Kombi amarela atropela nossos medos. Desconsideremos os
momentos em que passarinhos decidem fazer um ninho em nossos
travesseiros, desconsideremos eventuais seres mitológicos rondando nossa
porta, desconsideremos aquelas noites em que viramos múmia.
Desconsideremos esses momentos porque nessas horas, e somente nessas
horas, o tempo resolve brincar de estátua e parar. E dizem que quando o
tempo pára é para nossos olhos enxergarem o futuro sem fazer o foco. Eu
acredito nisso. Acredito, inclusive, que nos momentos em que o tempo pega
carona no vento e te leva para longe ele está te levando não exatamente
para longe, mas para um lugar onde o sol abraça o corpo e te faz assim,
viva, brilhante, repleta, inteira, completa. Acredito que, nesses momentos, o
tempo te abraça, te transporta para bem pertinho do obelisco de Luxor e te
faz esperar, sentadinha e com suas mãos que escrevem sonhos no ar
cruzadas sobre as pernas, o vento seguinte, como quem espera o bonde que
vai trazer, sorridente e com milhões de borboletas na corrente sanguínea,
este, que vos escreve, este, que te descobriu, este, que te sonhou, este que
sonhou que estava em Paris e que estava em Paris com você, o que me faz
crer que estou e que estamos, os dois, pontos acima da média naquela
escala que mede uma estranha e curiosa sensação que se chama felicidade.





André Gonçalves é autor do livro Coisas de Amor Largadas na Noite, disponível para compra pelo mail andrepiaui@hotmail.com


F.C.
19.07.2011

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